sexta-feira, 19 de maio de 2017

PAULO TAVARES

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Um presidente inimputável?

Apesar de tudo o que aconteceu desde janeiro e do inevitável adormecimento em relação ao comportamento do presidente dos Estados Unidos - a repetição tende a normalizar o absurdo -, esta semana não está a ser como as outras. Trump partilhou informação confidencial sobre planos do Daesh com o MNE e o embaixador russos?! Fontes na Casa Branca e nos serviços de informações dizem que sim. Trump pediu a James Comey, então diretor do FBI, que deixasse cair a investigação ao ex-conselheiro da Casa Branca Michael Flynn, sob investigação por alegadas ligações à Rússia?! As notas que Comey tirou depois da reunião com o presidente confirmam. Trump ameaçou Comey, que tinha acabado de demitir do FBI?! Sim, ficou escrito num tweet. Vladimir Putin saiu em defesa de Trump dizendo que só se poderá avaliar a sua presidência quando o deixarem trabalhar em pleno?! Sim. E o mesmo Putin disponibilizou-se a revelar os registos da reunião do seu MNE e embaixador na Casa Branca para ajudar Trump?! Sim, aconteceu mesmo. Não é o guião de uma comédia ou de um episódio de House of Cards.

Na madrugada de ontem, fontes da Casa Branca descreviam um cenário de caos absoluto, o presidente aos gritos na Sala Oval e a retirar-se cedo para a ala leste, para o quarto, deixando assessores e conselheiros com mais uma bomba para gerir. Aliás, há um sinal claro de que algo mudou nos últimos dias. As noites de CNN, CBS, MSNBC e Fox News ficaram desertas dos habituais defensores de Trump. Quase ninguém, do exército de fiéis republicanos, compareceu à chamada.

A palavra impeachment - destituição - entrou ontem no jogo. Não será para já. A maioria dos republicanos é sólida e, apesar dos sobressaltos dos últimos dias, o mais longe que algumas vozes conseguiram ir foi até um pedido de um procurador especial e de uma comissão de inquérito para investigar tudo o que se passou nos últimos meses. Outro pormenor que parece de comédia? Responsáveis da administração, próximos de Trump, dizem que um dos argumentos contra um eventual processo de destituição será a inépcia e a ignorância do presidente. Ele não entende bem o que anda a fazer, logo, o que quer que tenha feito, não fez por mal. Ainda assim, e a comprovar-se o pedido a James Comey - um claro caso de obstrução à justiça -, Trump poderá seguir as pisadas de Andrew Johnson, que em 1868 foi o primeiro Presidente a enfrentar um processo de destituição. Seja qual for o desfecho, há uma certeza. A América nunca esteve tão dividida e um processo de destituição vai cavar um fosso doloroso entre americanos.


IN "DIÁRIO DE NOTÍCIAS"
18/05/17

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