19/10/2016

ELÍSIO SUMAVIELLE

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Shine Your Light

Bob Dylan não precisava do Nobel para ser o que já é: uma parte da vida e das referências de sucessivas gerações, entre elas a minha. Tanto quanto se sabe, o homem não teve ainda qualquer reação e pode muito bem não tê-la em definitivo.

Da cidade do pecado e do jogo, Las Vegas, não veio qualquer sinal do senhor que ali trabalhava quando rebentou a notícia. Como improvável seria que Las Vegas fosse um local frequentável pelo Dylan de há 50 anos, sendo a circunstância, aliás, outra evidência natural da enorme espessura do seu percurso de vida. Por isso mesmo, não espero do poeta uma reação similar à de Sartre, em pública e militante recusa do prémio.

Outros autores existem para quem o Nobel foi decisivo para se darem a conhecer ao mundo, e eu próprio, enquanto leitor, confesso que deixei alguns na página 50, apesar daquilo que o Nobel representa na mitologia literária.

Os meus livros de cabeceira não são necessariamente Nobel, e lá estão Aquilino e Lobo Antunes. Ora, o sr. Zimmerman, o tal que surripiou o Dylan ao poeta Thomas, por tudo aquilo que tem produzido e vivido desde 1962, pode muito bem não se prestar a qualquer tipo de exposição pública a esse respeito.

Ou então, que o possa fazer com a mesma displicência com que recebeu a medalha da Liberdade das mãos de Obama (caramba, sempre era Obama!), a quem deu três palmadinhas no ombro e seguiu como se nada fosse.

O seu grande livro é ele próprio, poeta de todas as fés, contradições e ironias do género humano. Daí o meu gozo intenso por esta herética atribuição.

Whatever… all right, Mr. Dylan!

IN "i"
18/10/16

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