16/10/2013

JOANA PETIZ

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Em defesa dos cigarros

Já apanhei poucos desses anos em que fumar no trabalho era normal. Mas ao ler, outro dia, um artigo da especialista em Recursos Humanos do Financial Times, Lucy Kellaway, uma onda de recordações obrigou-me a dar-lhe razão.

Dizia ela - que nem sequer fuma - que os rituais do fumo, e até de beber um whisky para celebrar uma conquista, aproximavam os trabalhadores e geravam fluxos de informação importantes nas empresas, além de promoverem relacionamentos mais saudáveis. Proporcionando momentos de descontracção, era mais fácil ser criativo e encontrar soluções - num estilo muito Don Draper [o protagonista da série sobre os anos dourados da publicidade, Mad Men].

Não faço aqui uma apologia do regresso do fumo livre - até concordo com a proibição em locais de trabalho que não só evita que os fumadores intoxiquem os outros como ajuda a reduzir a quantidade de cigarros consumidos durante o dia. Mas a verdade é que se perderam coisas boas.

Desde que o cigarro foi banido das empresas, não só se esfumou esse facilitador de negócios e criador de empatias - acender um cigarro a outra pessoa tem uma dose de intimidade - como se criou um ambiente de quase batalha. Os que não fumam contra os outros - que deixam a casa de banho empestada quando ali prevaricam; que o ar fica irrespirável quando, altas horas, acreditam que a única outra pessoa no escritório, duas salas ao lado, nunca vai reparar que está a dar umas passas. Os que fumam contra o mundo - a matar o vício debaixo de chuva, do outro lado da rua para à entrada não ficar um tapete de beatas. E a rogar pragas aos que os atiraram para o exílio.

“E então?” - pergunta o leitor, que de certeza não é fumador. Bem, se não podemos voltar atrás, pelo menos devíamos tentar recuperar a parte boa. Não com fins-de-semana de team building, em que os trabalhadores são artificialmente obrigados a conviver - a sério, quem é que quer passar os dois dias livres da semana com os colegas de trabalho?! - e apenas se unem na cusquice sobre aqueles que se enrolaram à frente de toda a gente ou o outro que vomitou nos sapatos do chefe. Mas talvez criando condições para que momentos de convívio e descompressão se tornem naturais. Uma máquina de café decente num espaço com duas ou três mesas é um bom incentivo.

Chefe  de Redacção adjunta

IN "DINHEIRO VIVO"
14/10/13

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