09/08/2013

VIRGINÍA TRIGO

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Estratégia em 
24 caracteres

Começando com um tabuleiro vazio, a essência do Go é a construção e não a destruição e o jogo permite e estimula a aprendizagem através dos erros que se cometem. Cada jogo conserva um registo de si próprio e, tal como na vida, o jogador pode refletir sobre as suas escolhas e erros passados 
 
Uma forma de apreciarmos as diferentes culturas é através dos jogos com que os diversos povos se entretêm e onde exercitam o espírito e a mente. Uns jogam póquer, outros xadrez e os chineses jogam Go, um jogo que se ganha quando o opositor perde qualquer capacidade de movimentação e o vencedor controla todo o território. Go é um jogo de tabuleiro constituído por elementos e regras muito simples, visualmente elegante – linhas e círculos, preto e branco, madeira e pedra –, mas repleto de uma tal subtileza que retém fluidez e dinamismo por muito mais tempo do que outro jogo comparável. Li Chuan é mestre na arte de jogar Go e explicou-me que a melhor forma de alcançar a vitória é através da paciência e persistência com que se joga. No decurso do jogo a vantagem muda de lado inúmeras vezes e um bom jogador é aquele que está preparado para conceder vitórias temporárias, sendo flexível, mas decidido.

Li Chuan diz-me que o Go é uma analogia da vida, uma combinação de paradoxos, o mais simples de todos os jogos – trata-se apenas de ocupar terreno e de evitar ser ocupado – e o mais complexo de todos: ao contrário de outros jogos todas as jogadas são possíveis em todos os momento. Começando com um tabuleiro vazio, a essência do Go é a construção e não a destruição e o jogo permite e estimula a aprendizagem através dos erros que se cometem. Cada jogo conserva um registo de si próprio e, tal como na vida, o jogador pode refletir sobre as suas escolhas e erros passados que estão ali, à sua vista, e que poderá tentar corrigir num próximo jogo. Go é uma ótima exercitação da mente e um jogo de estratégia por excelência.

Olhando o tabuleiro onde as pedras pretas e brancas estão dispostas como um poema, Li Chuan lembrou-me que a famosa estratégia em 24 caracteres de Deng Xiaoping tem provavelmente inspiração neste jogo. Deng Xiaoping (1904-1997), o arquiteto das reformas que trouxeram a China à economia de mercado, estabeleceu um conjunto de princípios orientadores destinados ao corpo diplomático chinês em ação no estrangeiro e que conseguiu resumir em apenas 24 caracteres organizados em seis frases de quatro caracteres cada. Qualquer tradução para uma língua ocidental terá dificuldade em transmitir a riqueza e a densidade da mensagem, mas ainda assim Li Chuan arriscou uma interpretação de cada uma das frases: 
1- observar tranquilamente; 
2- proteger a nossa posição; 
3- lidar tranquilamente com todos os assuntos; 
4- dissimular as nossas reais capacidades, 
5- planear e esperar pela melhor oportunidade; 
6- manter sempre um perfil baixo; e nunca, nunca reclamar a liderança.

Estes princípios continuam ainda hoje subjacentes à diplomacia e à inteligência económica chinesas, mas em Dezembro de 2012 passaram a incorporar uma subtil e importante revisão. Num discurso proferido no Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais, um "think tank" do Exército Popular Chinês, o General Ma Xiaotin, um alto dignitário do exército, revisitou as prescrições de Deng Xiaoping, mas acrescentou mais alguns caracteres à quinta frase que deverá ler-se agora: manter sempre um perfil baixo "e alcançar algo". Esta mudança quer de facto dizer que embora a China continue a preferir uma estratégia de não exibição – até ao contrário da real importância que o país tem na Ásia e no mundo – ela tem de efetivamente fazê-lo com o propósito de atingir algo.

Conhecermos estes princípios e a forma como eles vão mudando é uma forma de entendermos os chineses e como lidar com eles.

Professora no ISCTE Business School 

IN "JORNAL DE NEGÓCIOS"
04/07/13

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