05/12/2012

FRANCISCO SARSFIELD CABRAL

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As lições 
    esquecidas da crise

A crise financeira internacional levou à publicação de inúmeros livros, artigos, estudos, analisando as causas da crise e as medidas para evitar que se repita (atenção: as crises da dívida portuguesa, assim como a grega, a espanhola, a italiana ou mesmo a irlandesa, têm causas sobretudo nacionais).

Um texto curioso foi publicado no Financial Times de 15 de Novembro, com o título ‘Marx teria orgulho nos banqueiros’. O autor (que desconheço) é Karl Sternberg, fundador do Oxford Investment Partners. Ou seja, alguém que conhece o sector financeiro por dentro.

‘Banqueiros’ designa aqui os gestores bancários, a vários níveis, sendo empregados que ganham muito. A tese de Sternberg é que os trabalhadores (os banqueiros...) levaram para casa todo o dinheiro dos bancos através de salários, prémios, ‘bónus’ e outras extravagâncias, à custa dos capitalistas (os accionistas). 

Com a ajuda dos contabilistas, diz ele, o staff das instituições financeiras convenceu os accionistas de que, para terem pessoal competente, lhe teria de pagar fortunas. Assim, ‘o trabalho descobriu um instrumento para destruir os capitalistas muito mais eficaz do que os sindicatos’. Marx estaria agora a rir. 

Daí, escreve Sternberg, não serem de estranhar os actuais ‘cantos de sereia’ dos banqueiros, alertando para as consequências – nefastas, na perspectiva deles – de mais regulação para o sector. Ora, para Sternberg «é a regulação que pode reconduzir a banca ao sistema capitalista». 

Nos Estados Unidos da América (EUA), por exemplo, a lei de regulação financeira (Dodd-Frank Act) é considerada, nos meios bancários, excessivamente complexa. E nos EUA ouvem-se vozes dizendo que não aplicarão as ‘demasiado complicadas’ regras de Basileia III (obrigando, nomeadamente, os bancos a rácios de reservas de capital mais exigentes, para se protegerem das crises). Repare-se que o Dodd-Frank não reintroduziu a separação entre bancos comerciais e bancos de investimento, imposta em 1933 e anulada em 1999, quando Clinton era presidente dos EUA. Na Europa, os bancos pedem mais tempo para aplicarem as regras de Basileia III.

Num recente colóquio promovido pela Comissão Europeia e pelo Banco de Portugal (BdP), o presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), Carlos Tavares, fez uma análise pessimista sobre o pouco que se avançou, sobretudo na Europa, na reforma da regulação bancária – apesar de há cinco anos ser consensual que o défice de regulação era uma das principais causas da crise... 

Carlos Tavares apontou factos. Por exemplo: a transparência dos mercados tem diminuído; os reguladores continuam sem informação sobre os mercados não regulados e têm menos informação sobre os regulados; é hoje maior a dimensão do chamado shadow banking (área que escapa à regulação); aumentaram os produtos financeiros complexos; ainda não foi tratado o conflito de interesses de agências que, simultaneamente, fazem rating e consultoria à mesma empresa; não diminuiu a desalavancagem (redução do endividamento, sobretudo), medida pelo rácio activos financeiros/Produto Interno Bruto (PIB), sendo historicamente altos os níveis de dívida privada. 

Ou seja, não foram tiradas as lições do que se passou desde há cinco anos. Nem se regressou aos valores tradicionais da banca. Um alerta do Presidente da CMVM que merece atenção. 


IN "SOL"
04/12/12

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