02/02/2011

VITOR RAÍNHO


 Humor, 
       religião 
             e gays


O humor sempre foi um campo muito fértil em polémicas e a linha entre o aceitável e o condenável sempre foi também muito ténue.

Os profissionais têm temas que gostam de parodiar e à cabeça aparece invariavelmente a religião. Não foi assim há tanto tempo que um cartunista dinamarquês viu decretada uma fatwa - sentença de condenação à morte - por ter desenhado o profeta Maomé com um turbante encimado com uma bomba. Desde então, Kurt Westergaard tem vivido com a sombra da morte.

Tirando os radicais islâmicos, os humoristas sofrem na pele sempre que entram por caminhos considerados politicamente incorrectos. Herman José foi censurado e retirado do ar da RTP em 1988 quando fazia entrevistas históricas no seu programa Humor de Perdição. A razão nunca foi totalmente apurada, embora se tenha escrito que as referências a uma hipotética homossexualidade do rei D. Sebastião tenham estado na origem no cancelamento do programa quando estava pronta a entrevista seguinte à Rainha Santa Isabel.

Curiosamente, são a sexualidade e a religião os principais factores de desunião no que ao humor diz respeito. Pode gozar-se com chefes de Estado e com todo o tipo de governantes, mas sempre que se entra nos campos citados, a história muda de figura. E até penso que é mais fácil gozar com a Igreja Católica do que com algum gay assumido ou encapotado. Ainda esta semana, na cerimónia de apresentação dos Globos de Ouro de Hollywood, em que os jornalistas estrangeiros fazem as suas escolhas, o apresentador de serviço, Ricky Gervais - um reconhecido provocador nato -, mereceu a reprovação de meio mundo por ter feito trocadilhos em que envolvia religião e sexo. Falando dos filmes que tinham ficado fora das nomeações, Gervais referiu-se a eu Amo-te Phillip Morris, em que dois heterossexuais fazem de gays, «ao contrário de alguns cientologistas famosos». Foi o suficiente para se saber que no próximo ano o apresentador será outro. Ninguém tem de dizer o que quer que seja sobre a sua sexualidade, mas também é ridículo que não se possa brincar com isso. Gervais não foi, por exemplo, condenado por ter achincalhado Charlie Sheen, um heterossexual muito dado nos últimos tempos a uma mistura de orgias, álcool e droga.

A liberdade de criação não pode estar prisioneira do politicamente correcto. Cada um tem direito a ser o que quiser. Heterossexual, homossexual, bissexual, o que bem entender. A vida a cada um pertence. O humor é de todos.

P.S. - Sobre a morte de Carlos Castro muito se disse. Mas nenhum artista a quem ele prometeu desfazer a carreira quis falar em on. Em Portugal ainda há muito pudor sobre os mortos...

IN "SOL"
24/01/11

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