15/11/2010

NOÉ NHANTUMBO


DISTRAÍDOS ESTRATEGICAMENTE VIRAMOS CARNE PARA OS ABUTRES
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Urge desconstruir a pobreza induzida...

Ex-colónias apanhadas no que historicamente tem explicação continuam trilhando pelos caminhos da dependência. Dirigentes anti-coloniais, com envergadura e créditos firmados transformaram-se em espantalhos revestidos de latão. Tanto queriam o “ouro” perto deles que ficaram virtualmente cegos. Ouro é sinónimo de poder só que os nossos dirigentes, antes líderes, perderam a vista e optaram por seguir as pegadas dos seus senhores de ontem. Dizendo e proclamando-se protectores e guardiães dos mais nobres ideais de seus povos a verdade nua e crua é que o que eles realmente perseguiam era o seu empoderamento individual e pessoal. Foi tudo afinal uma mera substituição do colono de ontem, branco, por abutres negros. A verdade não deixa mentir no que se refere à postura de quem nos governa.

Numa criação estratégica denominada de combate contra a pobreza o que se vê na realidade é uma postura abertamente de nepotismo erguido em guardião-mor dos interesses de quem governa e seu partido. Falam de pobreza como se fosse alguma coisa de extra-terrestres que nos aflige mas na verdade esta não é mais do que a prossecução de uma agenda dupla. Para os governantes significa sobretudo alinhavar agendas que coincidam com os seus interesses de enriquecimento rápido. Não interessa se é lícito ou ilícito.
O partido político que se bateu pela independência adulterou-se de tal modo que hoje constitui-se unicamente numa vergonhosa realidade do que um dia foi. Hoje ele consubstancia o resto, uma corrupção avassaladora em que seus integrantes aceitam tudo em nome da sua posição e permanência no poder.
Após uma desenfreada acumulação de capital a coberto e por via de uma privatização selvagem e com os termos pervertidos, vemos alguns dos “socialistas” de ontem “confessarem-se ao padre” e dizendo que afinal alguns de “seus camaradas” romperam com os pactos e estão semeando a pobreza.
A pobreza da maioria dos cidadãos não pára de crescer conforme até as estatísticas do Instituto Nacional de Estatística (INE) o indicam.
Afinal os “camaradas” não tinham nem têm a pílula mágica que supostamente traduziria seus actos em progresso e desenvolvimento para o país.
Há que reconhecer que a pobreza no país está crescendo porque as suas potencialidades e possibilidades estão sendo abocanhadas pelos que se diziam e se proclamavam salvadores da “Pátria Amada” e única alternativa válida em termos de governação.
Nada tem a haver com a frequentemente citada e utilizada conjuntura internacional adversa.
Quando a crise se abateu, onde os governos foram ágeis, responsáveis e consequentes descobriram e encontraram os mecanismos para fazer face a ela e impor agendas que a minimizasse. Plataformas criativas e consensuais foram adoptadas e os efeitos do descalabro de quem gastava mais do que não tinha e que vivia dos créditos dos outros, rapidamente se dissiparam, para dar lugar a situações de dinamismo e crescimento económico. Mas esses governos não ficaram à espera de qualquer “mão externa” para os salvar.
Face à pobreza e fraquezas estratégicas dos que tomaram o poder no país antes colonizado, vemos uma situação caricata e deprimente que só joga a favor da continuação da dominação dos moçambicanos e sua condenação a uma virtual recolonização por novos meios, meios mais eficazes e profundos.
As consequências podem ser vistas numa análise mesmo que superficial do que se passa no país. Uma massa importante de homens e mulheres está todos os dias a mendigar emprego mesmo que temporário em empreendimentos comerciais e industriais pertencentes aos investidores externos que aterraram em Moçambique a convite de uma elite que não aprendeu nem está disposta a aprender a trabalhar e a utilizar os seus recursos na realização de uma agenda económica que traga proveitos, desenvolvimento e dignidade.
Qual dos novos-ricos está investindo na agricultura deste Moçambique?
Em 2010 temos trabalhadores moçambicanos ainda sendo enxovalhados e insultados da mesma maneira que o eram seus pais na era colonial, por seus patrões. E a pergunta que se faz é se valeu a pena tanto sangue derramado e tantos sacrifícios consentidos na luta anti-colonial?
Por uma questão de investimento externo os governantes estão aceitando tudo mesmo veneno para a dieta de seus cidadãos. Para os que estão confortavelmente sentados em cima de fortunas de dimensão variável decerto que valeu a pena. Mas para a larga maioria a situação é deprimente e oferece muito poucas esperanças.
Numa abordagem táctica, rigorosa, executada seguindo o mais ínfimo pormenor, concertando estratégias com os seus pares, os colonizadores de ontem encontraram os meios mais eficazes para continuar a subjugar os africanos em geral. Aceitaram com todas as consequências o presente que lhes foi oferecido pelos “líderes africanos”.
Hoje África e Moçambique transformaram-se num território imenso que volta e meia mostra a sua inviabilidade, tudo fruto de uma maneira de estar e governar que nega qualquer possibilidade de emergência de regimes viáveis vivendo em harmonia com os seus vizinhos e respeitando os princípios de governação internacionalmente aceites como os mais justos e equilibrados.
Os africanos uma vez no poder se esquecem rapidamente de todos os credos que confessavam acreditar e defender.
Os abutres estão descendo e aterrisando em África e agora até já está na moda qualquer potência ou aspirante a potência organizar conferências pomposas denominadas: China-África, Japão-África, Índia-África, Europa-África. Iniciativas nascem e são criadas com vista a alegadamente trazer desenvolvimento para o continente mas tudo acaba por ser um acerto de agendas visando investimentos que vão concorrer para que mais recursos africanos sigam para os países organizadores de tais conferências.
Em África ficam os buracos vazios, o mar sem peixe e as florestas completamente cortadas.
Já deveria estar claro para os que ainda teimam em defender uma postura que até aqui poucos ou nenhuns benefícios trouxe para os moçambicanos, que enquanto se persistir em colocar os interesses dos poucos que governam acima de qualquer agenda nacional, o desenvolvimento não acontecerá e a pobreza só aumentará.
Onde se negoceiam os recursos naturais nacionais como se fosse, se tratasse de propriedade privada não se pode esperar de outra coisa como resultado. E com um parlamento abertamente hostil a qualquer questionamento sobre a justeza e oportunidade de acções propostas pelo governo, é difícil que este mude de caminho e que respeite a vontade e os interesses de seus cidadãos.
Importa que os moçambicanos façam uma séria reflexão sobre o que querem que o seu país seja e que encontrem os mecanismos políticos para desventrar os monstros que se abatem sobre eles.
“Separar o trigo do joio”, recusar os rebuçados envenenados que alguns escribas e políticos oferecem através da comunicação social, trabalhar no sentido de difundir uma informação que os capacite a tomarem conta de sua vida e seu destino, é vital.
Basta de jogo de palavras e de repetições de estratégias que se revelaram ontem erradas e que nos querem fazer outra vez engolir.
Queremos dignidade e o nosso lugar no concerto das nações. Queremos ser governados por quem tenha como agenda servir os moçambicanos e não tornar este país numa “pérola” que só adorna alguns eleitos.
Poesia bajuladora fora de contexto e discursos entorpecentes jamais serão a solução para os nossos problemas...

CANALMOZ 
09.11.2010 
MOÇAMBIQUE

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